sábado, 2 de novembro de 2013

Quanto mais, transformado sou.

Quanto mais a vida me bate,
mais cheio de curvas fico.
Quanto mais amo alguém,
menos medo sinto.
Quanto mais me entrego,
dono de mim sou.

E o tempo que passa?
É o mesmo que leva.

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Dai-me tempo. Meu

Ah essa vontade de viver
Que não me abandona
Que rouba de mim
O encontro com a dor que me apaixona
E que me deixa entregue, imerso, livre
Quase sem pudor

Ah essa falta de vergonha
Que invade tudo que me cerca
Impõe enxurrada de cores
Num arco-íris vivo envenenar
Roubando de mim as sombras
Por onde posso me ausentar

Se eu soubesse algum atalho
Por onde pudesse sentar livre
Encontrar o meu silêncio
Distante de tudo e de mim
Poderia com carinho me namorar
Para ai sim, apesar de tudo, recomeçar

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Paternidade

Não, eu não faço poema que quero
Faço o que sou capaz

Aquele que sai por vontade própria
Que desrespeita meu desejo
E de forma insubordinada
Transborda, foge de mim

E nas horas em que mais preciso
Me dá adeus, me surpreende
E vai embora
Levando consigo
Ao olhar de quem de fora
Torna-se mundo
Conta sua própria história

Definitivamente
O meu poema não é meu
E nem será seu
Ele é semente
E tem vontade própria

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Quando amo

Não sou permeável, assim
Não diluo fácil, não há fusão
Meu tronco, minha mente
Andam em vias inversas, contramão
 
Mas ao encontrar areia macia
Em terreno fértil de luz, sabedoria
Derreto por inteiro, viro líquido
E num pulsar de desejos, evaporo
 
São instantes únicos, metamorfoses
Onde deixo de ser o que pude
Para me tornar balão de gás e subir
Ao encontro da luz que me transforma

sábado, 5 de outubro de 2013

Estações

Onde mora minha coragem
Que sobrevive a tamanha desordem
De onde ela vem
Que caminhos percorre
Quais os lugares que me levará
 
De certo
Diante de tudo incerto
É que estou a deriva de mim mesmo
Percorrendo distâncias imensas
Em sol de purgatório, sentença
 
Mas não julgo querer diferente
Minha dor é caminho novo
É dela que parto, que desejo mais
É solo transitório de deserto
Em plena primavera, solidão
 
É dor de ventre materno
De colo macio que afasta
Que leva distância segura
Inverte meus polos
Transforma tudo que fui
Me faz verão

terça-feira, 1 de outubro de 2013

E agora, quem não sabe amar?

Seu amor é guarda blindada
Disfarçado livre desejo de amar
Que prende por não ser atacado
E morre por não saber existir
 
Teu ciúmes não nasce no peito
De onde todo amor se acomoda
Ele invade seus medos e lutos
Brotando das feridas da tua história
 
Já sua beleza é diferente
É algo latente pedindo passagem
Querendo sentir o cheiro ausente
Detrás dos muros, do lado de fora

"Função"

As noites servem
Para que outros continentes
Possam exercer a loucura do dia
Para que nossas almas
Possam permanecer em silêncio
E nossas mentes encontrem
Os sentidos dos nossos desejos
 
Servem também
Para dar vazão aos sorrisos
Libertar sombrio dos beijos aflitos
Das canções que não se calam
Embalando as horas dos que amam
Dos que foram amados
E dos que sonham ainda ser possível
 
Mas quando nada disso acontece
Cabe-nos o canto recatado e vazio
Da sala de estar que nos protege
Do frio cortante que nos domina
Em noites frias e vazias
Separa o silêncio generoso e só nosso
Do barulho tosco dos aflitos por "viver"

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Cartas

Como você me tinha
Em proporções extremas
De tudo e tudo demais
Dos meus pés
Aos pensamentos meus
Que Já foram muitos
E muitos todos seus
 
Como você não percebeu
Que tudo que eu tinha
E tudo que eu queria
Era o querer seu
Ser olhado e percebido
E amado como sou
 
E agora que esse amor foi embora
Levando as cores e odores
Escrevo madrugada afora
Linhas que me chegam como um grito
Necessidade incontrolável de proclamar justiça
Atenuar feridas
 
Mas com o passar das linhas
Tornam-se, por desejo próprio
Cartas de amor
Amor desejado. Despejado
Mas não menos grandioso
Que feriu na proporção inversa que amou

Casa vazia

Não chegue agora
Antes da sua volta
Preciso arrumar o quarto
Acender as velas
Deixar tudo à sua espera
 
O que antes era avenida aberta
Por onde nos achávamos
Agora é trilha fechada
Tomada por capim
Que nasce em solo abandonado
 
Como voltar se não existe mais caminho
O que antes era largo, só nosso
Tornou-se baldio, vazio
Nosso mundo à espera de reformas
Com mato crescendo por todas as horas
 
Há poeira por todos os lados
Não existe mais acesso
O que sobrou foi o barulho do mar
E com o barco que construo agora
Irei navegar por esse mundo afora
 
Mas sei, não me engano
Em todos os portos
Em cada cidade que desembarcar
Lembrarei de você, sentirei saudades
Da casa que tivemos em dias de encontro

domingo, 15 de setembro de 2013

Capturado

A mulher é a síntese mais
aguda dos meus pensamentos.



A retórica inversa de uma dor
que me apaixona.


A verdade incorreta
na expressão do meu sorriso.


A beleza da lágrima
escorrida no meu rosto.


A sutileza brutal
da ausência da minha razão.


E, por fim, a possibilidade única
representada nas tentativas das minhas fugas
onde o que mais desejo, sempre,

é ser descoberto.

Ainda não acabou

Horas que não passam
Dias que não chegam
Nada passa, nada muda
Nem a agua e nem a tumba
Que minha alma, sedenta
Insiste em repousar

E nas curvas dos meus sonhos
Percebo de onde vim
E para onde vou
Encontro as respostas
Que estão expostas
Bem na minha frente, lá

O que preciso é caminhar
Carregando essas pernas
Que pesam colheita generosa
De dores nascidas em solo seu
E que, a cada dia que colho
Torno menos duro, o dia de manhã

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Nas fotos em que te vejo

Enquanto percebo a vida ao redor
Em seu curso ferozmente iluminado
Percebo o silencio comedido
Enjaulado por traz da manta
Que separa os que sofrem
Da luz que o sol irradia
 
Vejo seu corpo, vejo pele e vejo osso
Sorrisos forjados em lagrimas contidas
Frases escritas nas redes da vida
Que quando proferidas não duram muito
Escorrem pelos dedos das mãos
Que asfixiaram nossas vidas 

Tentativa tosca de retomar
A vida que foi ceifada
Desperdício de afeto e parceria
Em dias e noites que se confundem
Onde não há sol e nem há lua
Nesse solo seco sem adubo

E nesse teatro social e banal
Repleto de dores e vazios
Não encontro respostas plausíveis
Que possam trazer o sol e a lua
Nossas verdades contidas
Nos sorrisos estampados nas fotos futuras

 

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Da Série: Rendado


Mão que escrevo

Ser poeta é diferente,
toma conta e dá na gente.
Alface, tomate e pimentão.
É jiló que se come com a mão.
 
É acordar sem ter dormido.
E ter dormido de frente pra gente.
É tufão, é contundente.
É sinal de porrada que se sai na mão.
 
É com tudo e tudo prepotente.
Sinais da mente que sentenciam,
que dão carinho e direção.
É plantar semente com a própria mão.
 
Ser poeta é diferente,
mas quem disse que quero ser igual.
Dor, alegria, e exaustão,
tudo que minha mão precisa,
pra seguir em frente.

Verão meu

Você,
Não amou o suficiente
Seus longos atalhos
Não confrontados
Não o suficiente
Quase chegou
Lenta, mente, sua
Cansou, foi dormir
Me deixou 

Fria noite,
Em suma ponte, redentor
Que atravessa a falta, o seco
Que encontra aqui dentro
Vasto campo podre
Afagando serpentes
Revendo duendes
Espalhados nas noites
Noites frias de um verão

Da Série: Rendado


Da Série: Rendado



sexta-feira, 6 de setembro de 2013

A verdade do meu olhar

O lado furioso da tristeza
No olhar que surgiu paralisado
Que tomou meus minutos
Revolveu minhas poeiras
Silenciou a mim e a todo resto 

Espaço de tempo de tempo de dois
De dores ocultas, de olhares perdidos
Do vazio que nasce da tua verdade
Dos amores que se partem
Preenchem, esvaziando a exaustão 

Quando entrei no banheiro
Não sabia que encontraria
A verdade pintada em luz
Crua e cortante como a cruz
Refletido no meu olhar
Nesse espelho em que me olho


Quando olhei sua foto
Não sabia que estaria lá
Cada pedaço de dor
Todas as saudades do amor
Refletidos no seu olhar
Nessa foto em que te olho

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Ser Eu | Ser Você

Freio de mão,
Catraca e corrimão.
Rabo de porco,
Carré de morto. Limão.
Mata arrancada,
Carne que sangra,
Gente que mata.
Que gente?

Quero o dia,
Luz a vista.
Meu passo livre,
Vitrine sem vidro,
Cachorro com latido,
Gato semente,
Traslado sem direção.

A ordem que causa,
Mente minha desordem,
Faz com que eu acorde,
E nem tente,
Somar pela igual aparência,
Embaçada lente.
Não tento. Não tente.

Gente | Mente

Ah se pela mente
Mais do que de repente
Houvesse a chance
Da gente ser diferente
Com menos dor
Cheiro de rosa liquidificador

Ah se pelas redes
Ruas, vielas e corredor
Pudéssemos encontrar com gente
Pura feira livre de dor
Sem ranço ou faca que corta
Sem vida futura cheia de mágoa

Ah se não houvesse se
Medos, sentidos alterados
Meias verdades, inventos
Que a realidade fosse agora
Sem meio silêncio, amor eterno
Contato íntimo sem lamento pudor

Se houvesse gente que não mente
Eu seria regente da minha história
Sem medo que outrora
Suas mágoas e dores
Viessem ofuscar as cores
Do amor que lhe ofereço agora

Banco de Cascalho (ou kuru'mba)

Não adianta perambular
pelos 4 cantos do mundo.
O mundo é redondo,
nele não há cantos.
Mas existem recantos,
e poesias que canto,
que embalam meus sonhos,
e me fazem existir.

Cara metade sou eu,
um transformado em dois.
Quando aqui cheguei,
não havia vizinhos.
Minha casa era redonda.
O dia partia para a noite chegar.
As mares secavam para depois,
poderem transbordar.

As verdades
sempre podem mudar.
Nesse mundo que muda,
sou feito de ciclos.
Sou feito de sonhos e luzes difusas.
Cheguei aqui para ficar,
para sorrir e para chorar.
Com você por perto,
ou pra lá de Corumbá.

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Meu pássaro que voou

Pela primeira vez
Posso ver a dor, toca-la
Marcas assinadas em meu braço
Por alguém que me amou
Materializada, Inteira a dor
Num ondular de vai e vens, envenenar
Que chove por horas convívio sem flor
Se faz a paz, apagam-se as velas
 
Nesses dias em que a dor me serve whisky
Essas marcas diminuem e quase partem
Esvaindo-se pelo punho que aflora
Em noites que outrora não dormi
Mas nos dias em que estou só
Minha dor se faz presente
Toma espaço, se avermelha
Nas feridas deixadas por um beija flor


Eu escuro

As verdades são melhores vistas
No escuro do silencio da casa
Na coragem que nasce
Da urgência da minha fala

Quando a noite acaba
Me despeço de quem pude ser
Nas horas embriagado
Em que pude ter você

Do que sei, do que pensei
Que um dia daria pra ser
Sei que fui maior do que pensei
Me tive assim, sempre com você

Mas agora que nada restou
Continuo a ficar no escuro do quarto
Em que mora aquilo que tudo sou
Melhor de mim, melhor que te dou

sábado, 10 de agosto de 2013

Projeto interrompido

(da série olhar de filho)

Vejo apenas minha face
no espelho em que te olho.
Tua ausência se completa
no silêncio que restou. 

Reflexo um tanto torto
do que sou eu sem você,
nesse apartamento decorado
com as cores do teu gosto. 

Palavras ecoam no silêncio
que se quebra, apenas,
pelo vai e vem dos carros
da avenida ao lado.

Penso nos meus pés
que tropeçam
nos cacos que encontro
espalhados pela casa. 

Beleza já não resta mais.
Já não vivo com conforto,
e não encontro o teu corpo
nos lençóis da minha cama. 

Nunca fui inteiramente eu,
restando apenas o meu choro
nesse mundo sem sentido,
nesse tempo que se foi.

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Sigo encontrando

Documentos que registram
tempos atrás,
que agora me parecem
tarde demais. 

Cartas, fotos, livros, vinhos
e muito mais.
Conta gostas de um tempo,
um tempo que não volta mais. 

Lembranças líquidas,
que mancham, diluem
tudo aquilo que quis,
tudo aquilo que fiz. 

Andar sobre pés,
insubordinados pés,
que buscam se curar,
que buscam não mais encontrar.

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Me libertar

Devo caminhar e experimentar
O destino que chega, que se revela
Que traz sentido, expõe motivos
Atravessa o tempo e me faz melhor 

Devo negar a morte, não me acovardar
Não me furtar dos desejos legítimos
Das histórias, das pegadas marcadas
Aproveitar a luz do fim da tarde e sonhar 

Devo acreditar, me reinventar
Não contar com o amanhã e apostar
Sem ter que temer, poder gozar
Sem garantias: sorrir e amar 

Devo discernir, me afastar
Do equívoco alheio, que não é meu
Que passa e repassa uma vida inteira
Nem sempre sua, uma vida dura 

São raízes fincadas em superfície crua
De terras secas em constante luta
Que se debatem sem saber ao certo
Pra onde ir, de onde partir 

Devo ter sabedoria, me apropriar
Da sorte dos que ainda vivem
Que abrem o peito em noite de lua
E que, assim, perdoam por sabedoria

Naquele Momento

(da série olhar de filho)

Vi a fraqueza em seus olhos, você nada mais sabia.
O sol alto como desafio,
decisões a serem tomadas,
você não falaria.
 
Nos seus movimentos já se via fuga.
Questão de tempo, te veria correndo.
O que restou da tua ausência?
livros antigos, sentimento de enjoo.
 
Preso num cotidiano sem sentindo,
andando como se não mais existisse,
e no meio do choro não achei teu sorriso.
Não senti teu cheiro.
 
Papeis em branco foi o que encontrei.
Poesias não nascidas de um amor que se foi.
Beijo a mão do tempo e peço que não me mate,
que me traga um novo sorriso,
um sonho novo que me faça sorrir.


terça-feira, 30 de julho de 2013

Pensar sem corrimões .. olhar rejuvenescido, potencializado: Olhar de filho!

Pude ver naquele momento a fraqueza em seus olhos. Você nada mais sabia. O sol estava alto no horizonte, com o desafio de um dia inteiro pela frente. Alguma decisão deveria ser tomada e, no entanto, eu tinha a certeza da sua incapacidade em falar o que era necessário. Nos seus movimentos já se via a fuga. Não demoraria o momento em que te veria correndo e, mesmo assim, alegraria até o fim, você que ainda estava ao meu lado. Mesmo com a constatação de que naquele ambiente, eu era o único. Não esperava outra atitude. Algumas pessoas não tem a capacidade de ser menos de que a expectativa, e assim sendo, acabam sendo muito menos do que o esperado. É sinal de fraqueza se achar tão bom a ponto de não se permitir magoar o outro, quando a sua própria vontade não vai de encontro a do tal outro. Porque com essa desesperada fuga nada pode vir de bom, nada que acrescente. O que me restou da tua ausência, foi uma dúzia de livros antigos, além claro, daquele sentimento de enjoo perante o cotidiano sem sentido de toda essa estirpe robótica dos dias de hoje. Teria eu a capacidade de entrar no automático, e sair por aí andando como se não mais existisse? Ou talvez eu pudesse me matar de trabalhar até não dispor mais de um cérebro... No meio do meu choro, de minhas lagrimas, não achei teu sorriso. Nem tua boca e nem teu cheiro. Papeis em branco foi o que encontrei. Poesias não nascidas esperando para descrever o amor que queria viver com você. Mas agora que não disponho mais dessa possibilidade, cabe amassa-los em pequenas bolas e joga-los fora, como qualquer homem magoado faria - além do álcool, é claro. A filosofia não me parece digna... Vem de um mundo diferente e superior. Vem das bocas dos deuses clássicos e das lindas musas de todas as épocas revestidas de ouro. Se não me cabe mais o que antes tinha a certeza de ver no horizonte, beijo o tempo, esperando que ele não me mate. Esperando que me traga o que sonhava viver contigo. Vejo apenas minha face no espelho em que te olho. Tua ausência se faz completa e tudo que fica - nesse apartamento decorado com as cores do teu gosto - é um reflexo um tanto torto do que sou eu sem você. Palavras ainda podem ser ouvidas, ecoando num silencio quebrado apenas pelos carros na avenida ao lado. Ficam pela casa os cacos perdidos de um projeto interrompido. Como posso ter construído cada pedaço meu, pensando apenas em você? Agora já não resta mais beleza alguma. Vivi sempre tranquilo, sabendo do conforto que sua presença - que julgava eternamente fixa - me traria em todos os dias de minha existência. Eu, sempre vivendo pela metade. Nunca fui inteiramente Eu. Desde o dia em que me emocionei ao ver o contorno do sol, revolvido pelo azul gasoso do céu, a vida me parece completamente sem gosto. Ao ver refletido todo meu espectro emocional naquele simples nada, chorei como uma criança que acorda perdida nesse mundo sem sentido, o primeiro choro magistral, o choro dos vivos. Se ao chegar aqui os bebes se colocam a chorar, já se promete naquele exato momento, que a estadia não será agradável, pois caso fosse, os bebes nasceriam dançando e cantando. Mas tem algo, indistinguível nessa nuvem de poeira, que atrai os sentidos dos homens que sentem, dos homens que "pensam". Estes correm com seus cérebros sobrecarregados de vida, muitas vezes desesperados e loucos, mas ao acordar, sabem em algum lugar de si mesmos, algo que nem mesmo podem explicar. Houve momentos em que o simples contemplar do barulho ensurdecedor das ondas do mar, explicaram muito mais do que naquele momento poderia sequer ser imaginado. Ao entorno desses homens estranhos, mais homens estranhos, repousando num tipo distinto de estranheza, diferente da dos primeiros, algo infinitamente mais grotesco. Perdidos entre as horas e os pequenos problemas da vida padrão, aqueles que se emocionam ao ver o brilho do sol não entendem como podem os que dormem, não verem aquilo que pra eles é tão gritante. Ó meu caro, se agora as lagrimas começam a correr pelo meu rosto, não é por estranhamento aos tais "sonâmbulos", mas por amor a eles. Se a irritação dos "nobres de espirito" chega a abalar o equilíbrio deles, é por puro desentendimento. Tal categoria de homens tem em sua amplitude de visão, a gênese de sua cegueira. Querem o agora, pois o futuro ainda não é, e o passado não os contenta. Não querem saber da cor das toalhas, nem dos carros cada vez mais velozes, querem apenas aquilo que os relembrem que o "mundo" não é só a eterna comedia em que se veem diariamente. Um certo companheiro -desses que vive por aí, meio angustiado, meio louco, desses que olha pra formigas com um olhar eterno e pulsante - passa suas horas de manipulação escrevendo pequenos textos espontâneos, vomitados por uma necessidade de SER. Em tais textos estão contidos olhares que ratificam aquilo que ele anda buscando, mas que não acha: o SER - dizem que tal estado existe, mas poucos foram os momentos em que se teve certeza disso. Em sua contemplação do SER, que raramente vê, tudo que não É o incomoda. O estado padrão marcado pelo não SER traz a superfície de sua mente que É, uma silenciável questão: estamos vivendo - ou tentando viver, na medida do possível - entre cadáveres já apodrecidos, pessoas já há muito mortas, sepultadas em sua própria pequenez. Mas os humanos solares que as vezes olham os mortos de cima, logo lembram que não se encontram em cima, porem, inacreditavelmente embaixo. Pois sua posição inferior é não verdade toda a sua superioridade. São duros e implacáveis com eles mesmos, se jogam no lodo da existência, pois sabem que toda a "luz" (existência-tudo), surge das "trevas" (inexistência-nada). Alguns deles, com egos mais inflados e conceitos de si mesmo um pouco maiores, se fecham ao rebanho, calam-se porque não aguentam mais. Perderam a paciência, sentem pena, pois no fundo se acham melhores - há alguém que possa culpa-los? São seres sofridos, existem onde a inexistência é o normal. No fundo sabem que não são melhores. Alguns cogitam alienação, automatização, mas sabem que NAO possuem essa escolha. Se tornar robô não é e nunca será opção, mesmo que mais fácil. Cabe aos "solares" mais "leves" - mesmo com toda a carga que também carregam - continuar com as palavras amargas que trazem a doçura para aqueles que vivem numa eterna preguiça mental. É duro conviver com gente que busca o "paraíso" fora de si. Mas enquanto houver a brisa e o sol matinal, a noite estrelada e o vermelho pulsante do amor-paixão, os "solares"- os verdadeiros Cristos tem algo pelo que lutar. Continuemos irmãos, lutando pelos nossos paraísos individuais - nos quais ninguém pode entrar, mesmo que possamos entregar-lhes flores recém colhidas - polindo nosso interior IMPERECÍVEL, sabendo que carregamos verdadeiras palavras de amor dentro de nós. Amem-se a si mesmo, por isso, cultivem-se, mas NAO se esqueçam de entregar as flores que brotam do interior de vocês mesmos. Os homens, ao contemplarem sua própria fraqueza, fundam a sociedade, uma tentativa de remédio paliativo para toda a insegurança humana. É de se esperar, portanto, que eles lutem com toda a energia que lhes é destinada, contra aqueles que nascem pra mudar o estado inerte em que se mantem os covardes por trás da mascara CIVILIZAÇÃO.

"Minha solidão não tem nada a ver com a presença ou ausência de pessoas… Detesto quem me rouba a solidão, sem em troca me oferecer verdadeiramente companhia….” Nietzsche

domingo, 7 de julho de 2013

Pele que habito

Qual o motivo de reagir,
se o instante antes
dura somente um instante,
não a vida inteira?

O que duraria,
além da própria vida,
que dura seu tempo inteiro,
parado ou na correria?
 
Seria os sonhos, os sorrisos,
nossos desequilíbrios.
O que duraria além da vida,
o teu, o meu odor?
 
O que não é visto,
que não é percebido,
das quais não me visto,
poderá ser ou não!
 
Me visto daquilo que sinto.
E Invisto na procura de roupas,
nesse enorme brechó
que a vida se transformou.

sexta-feira, 5 de julho de 2013

Dor que não se vê

Palavras escritas todos os dias,
nas horas lentas desde o sol nascer.
E hoje, já algum tempo e no dia seguinte,
fujo do silêncio vomitando poesias.

Dentro de mim mora um mundo de magoas,
que em certos dias dificulta respirar.
E me pego pensando no mundo que me habita,
que invadiu meu corpo como se fosse seu lar.

Ela não sabe o mal que me fez, a dor que causou.
Feliz dela que me mata sem saber.
Que prefere o cultivo da visão turva,
da falta da razão, da verdade oculta.

Todo pioneiro é um herói fracassado,
há de ter exageros para ser o primeiro.
Mas ela não sabe, ela não sabia,
e nem sei, ao certo, se saberá um dia.

Na mão do tempo


De você não quero nem as lembranças
de um tempo que não existe mais.
Nunca existiu.

Um ser atormentado e fantasiado,
disfarçado de alguém que nunca foi.
Nunca será.
 
Em um instante a verdade emergiu.
Num descuido a mascara caiu.
E assim, em plena luz do dia,
em preto e banco. Sem cor.
 
E nas marcas deixadas,
transformando-as em mapa, caminho e direção,
passo a orientar o meu traçado
na busca da verdade e da minha redenção.

E as feridas? Na mão do tempo. 
O que peço? Rezo.

Salve São Jorge
Salve Jorge
Salve essa alma

Só não vou dizer amém. Não mais.

terça-feira, 26 de março de 2013

O som do coração


Pois é, vai entender
os caminhos do coração.
Assim do nada, grita
o nome de quem o possui.

Como numa orquestra,
no som do coração,
encontro a harmonia
que preenche meu silêncio.
Encurta a distância.
Me traz você.

Nessa partitura,
encontro mais, encontro amor,
encontro paixão, carinho,
encontro parceria.
Encontro até a paz.

Paz que insiste em me deixar,
em tempos duros com menos cor.
E vivo através dele meu presente.
Vou de encontro ao futuro.
Passo a compreender, melhor, o que vivi.

Nessa musica composta por nós,
(maestro e maestrina)
seguimos as pistas,
os rastros dos sons deixados
por nossos corações.

segunda-feira, 4 de março de 2013

A minha chegada

Diante do agreste vocal
que fui tomado,
na enxurrada de emoções,
afogado, minha fala secou.

Vou represar minhas emoções,
dar vazão ao silêncio,
cuidar das feridas,
e acolher minha paralisia.

Paraplégico de mais possibilidades,
passo a acreditar no repouso.
Imponho isso a minha alma,
transitoriamente em frangalhos.

Da visão corrompida, brota:
A reza por um parto, uma ressurreição.
O inicio que parte do fim.
A chegada que vem antes da partida.

E sigo, aclamando pela ordem perdida.
Pela partida da ótica do caos instalado.
Do saber sem fome, mas sedento.
Da engrenagem corrompida, paralisada.

E na crença da cura,
do dia que está por vir,
no colo de quem amo,
aguardo, ansiosamente, por mim.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Navedevagar

Eu já fui temperamental,
já fui genial,
eu já fui medíocre.

Eu já fui gente boa,
já fiquei de bobeira,
Eu já fui barraqueiro.
E andei pelos céus,
dancei pelos mares,
e fui bailarino.

A verdade é que percorri muitas milhas,
já vivi muitas intrigas,
Já amei ao luar.

E no passar das estrelas,
entre o céu e laranjeiras,
eu vivi de um tudo e mais.

E sentado na mureta,
onde a terra toca o céu,
no limite dos meus tempos,
meu passado, meu presente,
mesma coisa e diferente,
continuo a navegar.

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Inveja branca e invertida


Gosto da vida,
Das manhas, das tardes
E das noites.

Tenho o olhar atento,
Dentro desses tempos,
Para a hora que o sol se põe.

De forma rápida e perigosa,
É no pôr do sol
Que a natureza troca a guarda.

Podendo, dessa forma,
Tudo acontecer.
Não há guardas, não há regras.

É o dia que fica.
É a noite que chega.
É o imponderável que se apresenta.

Invejo a coragem da dor concedida,
Quase sempre nessa fração de tempo,
Pelos grandes compositores.

Sobretudo do samba de alma negra,
que fazem dessa dor,
E dessa troca de turno,
Seu momento de anarquia.

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Momento de desequilíbrio

Desequilibrei, eu sei.

Perdi meu prumo.

Sai do eixo.

Me desorganizei.



Estado que me faz perder,

o que tenho de melhor:

O meu olhar, olhar meu.

De me olhar. Me desvendar.

domingo, 2 de dezembro de 2012

Catarse hidrográfica


Quando o silêncio explode.
Diante do véu rasgado,
E dos sonhos dilacerados,
Surge, no meio de tudo,
A ausência.

Afiada e cortante,
Pulsa forte na via inversa,
Bate de fora para dentro.
O coração que respalda a vida
Bate dentro, impulsiona fora.
Bate saudável, bobeia vida.

E na insistência do silêncio
Da ausência do som, da vida
Correm como rios,
Emaranhados de rios,
Que insistem habitar
Minha face.

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

ASSIM

Veio-me uma imagem, minha, novo
Nos devorando pelos cantos do Rio

Pude nos ver bem mais velhos
Sentados na varanda da nossa casa
Com nossos filhos
Quase pude tocar em tudo

Fui tomado por uma compreensão
Percebi a verdadeira razão de existir
Eu nasci pra viver com você

É triste quando o amor não basta
Mas é incrível
Quando esse mesmo amor
Atravessa o tempo, envelhece junto

Simples, assim, tão simples. Tão nós.

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Carta de Adeus


Minha vida, minha nova vida
Aprender com os sorrisos e as dores
A cada hora, em qualquer lugar
Assumir o novo sem deixar o resto

Diante do que me foi possível
Hoje véspera de amanhã, digo
Escolhi o nosso amor, repetidas vezes
Através do corpo, do coração e da minha alma

Quero que saiba, sem arrependimentos
Que me doei como nunca antes
Enfrentei medos, iluminei sombras
Desejei ter você para sempre

Mas prometo carregar comigo
A lembrança de uma mulher
Jamais antes vista por esses olhos
Que agora choram

Hoje véspera de amanhã
Confesso e me preparo para o novo
Mesmo sem tê-lo desejado
Uma única vez sequer

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Mais um dia


Quando a noite chega
E eu adormeço
Meus sonhos chegam
Minhas dores desaparecem
Mas é nas manhãs
Quando abro meus olhos
Que percebo que tudo voltou
Que na verdade não se foram
E que terei mais 24 horas
De convívio, de cuidado
Minhas feridas estão expostas
E minha absolvição
Ainda está por vir


Em uma pausa de mil compassos (Paulinho da Viola), 
me aproprio dessa voz (Philippe di Bosgo):

“Vasculhei minhas memórias,
muitas vezes no silêncio da noite,
e comecei a me reconstruir”

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Meus erros e acertos

Abro mão das minhas recordações
Fotos, ingressos, lugares
Até mesmo do ato de lembrar
De sentir saudades

Quero ficar puro, recém-nascido
Preparar-me pra receber o novo
Fazer escolhas, intensificar

Minhas prioridades romperam
Minhas dores, preciso cuidar
Guardar o pouco que tenho
Transformar em novo, em muito

Quero a luz de um novo dia
Quero palavras doces, uma mão amiga
Um colo com pegada de mãe

Quero pode ser seu
Sem jamais deixar de ser eu
Quero cometer erros
Sem estar, necessariamente, condenado

Quero que venha o novo
Que me tome por inteiro
E que transforme erros e acertos
Na precisa visão de quem sou de fato

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

TROCA DE TURNO


Tantas respostas que tenho
Tantos equívocos que vejo
Meu silêncio é tudo que devo

A verdade em formato de palavras
Pula dentro de mim a procura de ar
Quer ganhar o mundo, alcançar seus ouvidos

Meu grito, não contenho quase
Lágrimas, nem se quer possuo
Época de seca, serrado

Diante dessa foto
Começo a me despir, para poder me despedir
É o “velho”, dando lugar ao sonho novo

... e que venha o tempo!

TIRO NO PÉ

Transbordaste por todos os lados
Em retirada violenta, partiu
Sem medo de romper
E na busca de ter razão
Perdeu-se, tornou-se vulgar

Seus limites ficaram ainda menores
Suas dores, agora guardadas, irão mofar
Suas origens virão te assombrar
E você apoiada nesse ombro?
Pequeno ombro que nem pé tem

Em um só click, um só registro
Ficou a sombra de muitos
Apagou cada cor de natureza registrada
Cada momento vivido, muitas fotos

E ao olhar para o lado
Esse novo ombro que verá
Trará-te a ausência de mim
Do meu cheiro, do café que fiz
Do sorriso ao te ver mais uma vez

E apoiada por esse e muitos outros
Quantos ombros desejar
Nunca irá me encontrar
Nem a sombra do que fui
Muito menos o amor que te dei

... que venha o tempo!

quarta-feira, 2 de maio de 2012


SER POETA

Queria ser poeta
Ter acesso ao detalhe
Poder compreender melhor
O amor que não respira
A dor que movimenta
Uma letra que parece minha
A angustia que parte
A dor que fica e que é minha

Quando a esperança finda
Carrega consigo o desejo de querer
Onde mora a ansiedade de viver
Sem esperança não há desejo
Sem desejo não há ansiedade
Resta a dor que é legitima
E que me faz lembrar
Do que fui, do que sou
Do que serei transformado
De você e de mim

terça-feira, 1 de maio de 2012


AUDIÇÃO

Gosto dos momentos felizes
Mas não temo em perdê-los
Faço dos pensamentos
Meu lugar de conforto
Minha cama macia

Quando não temos para onde ir
A quem recorrer
Medimos nossas perdas
De forma terrível
Injusta e precária

Um momento não perpetua jamais
Meus pensamentos são meus
Minhas dores do mundo
E o que vou fazer
A vida ira me dizer